terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A VERDADEIRA REVOLUÇÃO


VERIFIQUEMOS qual é a situação do indivíduo na sociedade, se o indivíduo pode contribuir para uma transformação radical da sociedade; se a entidade transformada, o ser humano inteligente que logrou transformar-se fundamentalmente, tem alguma influência, se pode atuar de alguma maneira na corrente dos acontecimentos; ou se o indivíduo de que falo, a entidade transformada, nada pode fazer, ele próprio, mas pode, pela mera circunstância de sua existência, injetar alguma espécie de ordem na sociedade, na corrente do caos e da confusão. Vemos como no mundo inteiro a ação em massa obviamente produz resultados. Percebendo isso, vem-nos o sentimento de que a ação individual é muito insignificante, que vós e eu, ainda que transformemos a nós mesmos, muito pouca influência podemos ter; e, assim, perguntamo-nos o que valemos nós, uma vez que somos impotentes para influir na corrente.

Ora, por que pensamos com referência à massa? As revoluções fundamentais são produzidas pela, massa, ou são elas iniciadas por uns poucos indivíduos de visão que, pelo seu verbo e sua energia, influenciam grande número de pessoas? É assim que nascem as revoluções. Não é um erro julgar que nós, como indivíduos, nada podemos fazer? Não é um engano supor que todas as revoluções fundamentais são produzidas pela massa? Por que pensamos que os indivíduos não têm importância como indivíduos? Como tal atitude mental, nunca pensaremos por nós mesmos, e reagiremos sempre automaticamente. A ação é sempre da massa? Ela não brota, essencialmente do indivíduo, comunicando-se, depois, de indivíduo a indivíduo? Não existe realmente essa coisa chamada massa. Afinal de contas, a massa é uma entidade constituída de pessoas que estão enredadas, hipnotizadas por palavras, por certas idéias. Quando não estamos hipnotizados por palavras, estamos à margem da corrente - coisa de que nenhum político haveria de gostar. Não deveríamos manter-nos à margem da corrente e tirar dela outros indivíduos, em número crescente, para, dessa maneira, influir na corrente? Não importaria muito que se realizasse uma transformação fundamental no indivíduo, em primeiro lugar, que antes de tudo vós e eu nos transformemos radicalmente, em vez de esperarmos que todo o mundo se transforme? Não é um ponto de vista "escapista", uma forma de indolência, uma maneira de fugir ao problema, pensar que vós e eu somos incapazes de influir, por pouco que seja, na sociedade como um todo?

Quando vemos tanto sofrimento, não apenas em nossas vidas, mas também na sociedade que nos cerca, que é que nos impede de nos transformarmos, de nos modificarmos fundamentalmente? Será simples hábito, letargia, qualidade da mente, que está satisfeita com o padrão em que se acha encerrada e não deseja quebrá-lo? De certo, não é apenas isso, porque circunstâncias econômicas quebram aquele padrão; entretanto, persiste o padrão interior, o padrão psicológico. Por que persiste ele? Para nos transformarmos fundamentalmente, radicalmente, teremos necessidade de alguma influência ou força exterior - como o sofrimento, a revolução econômica ou social, ou um guru - isto é, teremos necessidade de compulsão? Uma força exterior implica conformismo, dependência, compulsão, temor. Modificamo-nos fundamentalmente pela dependência? Não é um estorvo o dependermos, para nossa transformação, de forças exteriores, comoções econômicas, etc.? Essa dependência de uma força exterior impede a revolução radical, porque a revolução radical só pode vir, quando compreendermos o processo total de nós mesmos. Se, para a transformação, dependemos de uma força exterior de qualquer espécie, introduzimos o temor e outros fatores que impedem a transformação. Um homem que deseja deveras a transformação, não depende de nenhuma força exterior, não há luta em seu interior; ele percebe a necessidade e se transforma.

Será de fato difícil a transformação do indivíduo? É difícil ser bondoso, compassivo, amar alguém? Afinal de contas, é esta a essência de uma transformação radical. A dificuldade é que temo uma natureza dualista, na qual existe ódio, aversão, varias formas de antagonismo, etc., que nos afastam do problema central. Estamos de tal maneira entranhados nos impulsos que incitam ao ódio, à antipatia, que perdemos a chama pura, ficou-nos só fumo; e o problema fica sendo o de como nos livrarmos do fumo. Não possuímos mais, em absoluto, a chama da criação; tomamos o fumo pela chama. Não é necessário investigarmos o que é a chama, isto é, ver a s coisas de maneira nova, sem, nos subordinarmos a um padrão; olhar as coisas como são, sem, lhes darmos nomes? Será realmente difícil isso? A dificuldade é que os mais de nós estamos cheios de compromissos, assumimos inumeráveis responsabilidades, deveres, etc., e dizemos que deles não nos podemos eximir. Positivamente, essa não é uma dificuldade real. Quando sentimos uma coisa profundamente, nós fazemos o que queremos, sem considerações de família, da sociedade, e tudo o mais. Assim, a única dificuldade resulta de não sentirmos suficientemente a importância da transformação radical do indivíduo. É imperioso que se opere essa transformação. A transformação se realizará quando vivermos sem "verbalização", quando virmos as coisas como são realmente e aceitarmos a verdade tal como é. Isso deve começar em nós, como indivíduos. Se não começa, isso se deve, simplesmente, a que não prestamos atenção suficiente, não nos entregamos, com todo o nosso ser, à compreensão dessa coisa; vemos tanto sofrimento ao redor de nós, e há tanta confusão dentro em nós, e todavia não nos dispomos a pôr cobro a essa situação.

Agora, que acontece quando tenho um problema e procuro resolvê-lo? Na solução do problema, surgem-me vários outros problemas; resolvendo um problema, multiplico-o. Por isso, desejo encontrar a solução do problema sem aumentar o problema, desejo viver feliz, desejo estar livre da aflição psicológica, sem arranjar um substituto para ela. É possível descobrir se podemos realmente dissolver a aflição, se podemos investigara sem contar com a autoridade de ninguém, examiná-la em nós mesmos, observando-nos a todas as horas e em toda espécie de relações? Não será esta a única solução do problema: observar-nos constantemente, o que pensamos, o que sentimos, o que, fazemos, conservar-nos nesse estado de vigilância em que tudo se nos revela?

Cumpre-vos experimentá-lo e não, simplesmente, dizer que não é possível, nem aceitar a minha autoridade e repeti-la, apenas. Suponhamos que sejais feliz, e eu não; e desejo ser feliz, não desejo narcotizar-me com crenças, etc., mas, sim, levar inteiramente a cabo o meu propósito. Nessas condições, procuro-vos, investigo, e examino a questão mais e mais profundamente. - Que vos impede agora de assim proceder? Por que não tendes o sentimento da felicidade, da criação, de ver as coisas como são? Por que não operais nesse sentido profundo? Por que dizeis que o sofrimento leva à felicidade, que o sofrimento é um meio de alcançar a felicidade, aceitastes o sofrimento, ou outro substituto qualquer. Fizemo-nos de tal maneira embotados, que não percebemos a necessidade de nos modificarmos, e aí é que está a dificuldade.

Dizeis porventura, que desejais modificar-vos, mas alguma coisa há que impede a transformação. Explicações não alteram coisa alguma. Dizer que o "ego" é um obstáculo, é simples explicação, mera descrição. Desejais que eu descreva a maneira de vencer os obstáculos; mas precisamos achar um meio de saltar a barreira, se possível, precisamos lançar-nos à corrente, ousadamente, aventurosamente, em vez de ficarmos sentados na margem a especular. Que nos está impedindo de dar o salto? O que no-lo impede é a tradição, que é memória, que e experiência, - não é verdade? Tanto nos satisfazemos com palavras, com explicações, que não damos o salto, mesmo percebendo a necessidade de saltar. Alvitra-se que não ousamos lançar-nos à corrente porque temos medo do desconhecido. Mas, é-me possível saber o que acontecerá, é-me possível conhecer o desconhecido? Se eu o conhecesse, não haveria então temor algum - e não seria o desconhecido. Nunca me será dado conhecer o desconhecido, se não me aventuro.

Será o temor que nos está impedindo de lançar nos à aventura? Que é temor? Só pode haver temor em relação com alguma coisa, ele não existe em isolamento. Como posso temer a morte, como posso temer uma coisa que desconheço? Só posso temer o que conheço. Quando digo que temo a morte, estarei mesmo com medo do desconhecido, ou estou com medo de perder o que me é conhecido? Meu medo não é da morte, mas sim de perder a minha associação com coisas que me pertencem. Meu temor está sempre em relação com o conhecido, e não com o desconhecido.

Assim, o que agora me cabe inquirir é como ficar livre do temor inspirado pelo conhecido, que é o temor de perder minha família, minha reputação, meu caráter, meu depósito no banco meus apetites, etc. Direis que o temor surge da consciência; mas vossa consciência é formada pelo vosso condicionamento, pode ser insensata ou sensata; a consciência, pois, também, é resultado do conhecido. Que sei eu? Saber é ter idéias, ter opiniões a respeito de coisas, ter um sentimento da continuidade do conhecido, e nada mais do que isso. Idéias são lembranças, resultados de experiências, que são reações a estímulos. Tenho medo ao conhecido, o que significa que tenho medo de perder pessoas, coisas ou idéias, tenho medo de descobrir o que sou, medo de me ver em embaraços, medo da dor que, poderia resultar de perder, ou de não ganhar, ou de não ter mais prazeres.

Há o medo á dor. A dor física é reação nervosa; a dor psicológica se manifesta quando estou apegado a coisas que me proporcionam satisfação, porque, em tal caso tenho medo de qualquer pessoa ou coisa que me proporcionam satisfação, porque em tal caso tenho medo de qualquer pessoa ou coisa que possa arrebatar. As acumulações psicológicas impedem a dor psicológica, enquanto não são perturbadas; isto é, sou um feixe de acumulações, experiências, que impedem qualquer perturbação séria - pois não desejo ser perturbado. Por isso, temo qualquer um que venha perturbá-las. Meu temor, portanto, é inspirado pelo conhecido; tenho medo, por causa das acumulações, físicas ou psicológicas, que constitui para defender-me da dor ou evitar a aflição. Mas a aflição está presente no próprio processo de acumular para proteger-nos do sofrimento. Também o conhecimento ajuda-nos a evitar a dor. Assim como o conhecimento da medicina nos ajuda a evitar a dor física, assim também as crenças nos ajudam a evitar a dor psicológica, e esta é a razão por que tenho medo de perder as minhas crenças, embora eu não possua um conhecimento perfeito, nem prova concreta da realidade de tais crenças. Posso rejeitar alguma das crenças tradicionais que me foram inculcadas, porque minha experiência própria me dá força, confiança, compreensão; mas tais crenças e o conhecimento que adquiri são basicamente idênticos, isto é, constituem um meio de proteção contra a dor.

Existe temor enquanto há acumulação do conhecido, que gera o medo de perder. Por conseguinte, o temor do desconhecido é, na realidade, o medo de perder o conhecido, por nós acumulado. A acumulação, invariavelmente, importa em temor, o qual por sua vez importa em sofrimento; e no minuto em que digo "não devo perder" há temor. Embora, quando acumulo, a minha intenção seja a de resguardar-me da dor, a dor é inerente ao processo de acumulação. As próprias coisas que possuo criam o temor, que é dor.

A semente da defesa encera também o ataque. Desejo segurança física; por isso crio um governo soberano, e este necessita de forças armadas, que acarretam a guerra, a qual destrói a segurança. Sempre que há o desejo de autoproteção, existe o temor. Quando percebo a falácia do desejo de segurança, desisto de acumular. Se dizeis que o reconheceis, mas não podeis deixar de acumular, é que de fato, não percebeis que na acumulação está me inerentemente, a dor.

Existe temor no processo de acumulação, e a crença em alguma coisa é parte do processo acumulativo. Morre o meu filho, e eu creio na reencarnação para, psicologicamente, preservar-me de mais sofrimento; mas no próprio "processo" do crer existe a dúvida. Exteriormente, acumulo coisas, e provoco a guerra; interiormente, acumulo crenças, e provoco a dor. Enquanto desejo estar seguro, ter depósitos nos bancos, ter prazeres, etc., enquanto desejo tornar-me alguma coisa, fisiológica ou psicologicamente haverá dor, necessariamente. As mesmas coisas que estou fazendo para proteger-me da dor, geram o temor e a dor.

Nasce o temor quando desejo permanecer num determinado padrão. Viver sem temor significa viver sem padrão algum. Quando desejo determinada maneira de viver, esse desejo, em si, é uma fonte de temor. A dificuldade está no meu desejo de viver segundo um certo molde. Não posso quebrar o molde? Só posso quebrá-lo ao perceber esta verdade: que o molde está causando temor, e que o temor está reforçando o molde. Se digo que preciso quebrar o molde, porque desejo ficar livre do temor estou seguindo outro padrão, o qual será a causa de outros temores. Toda ação de minha parte, baseada no desejo de quebrar o molde, há de sempre criar outro padrão, e, portanto, temor. Como posso quebrar o padrão sem causar temor, isto é, sem nenhuma ação, consciente ou inconsciente, de minha parte; em relação a ele? Significa isso que não devo agir, não devo fazer movimento algum para quebrar o molde. Que me acontece, então, quando fico apenas observando o padrão sem nada fazer em relação a ele? Percebo que a mente é, ela própria, o molde, o padrão; ela vive no padrão habitual, que criou para si. Por conseguinte, a mente é, ela própria, temor. Tudo o que a mente faz é no sentido ou de reforçar um velho padrão ou de por em vigor o um padrão novo. Significa isso que tudo o que a mente faça para livrar-se do temor, há de gerar temor. Ao percebermos a verdade disso, ao percebermos o "processo" respectivo, que acontece? A mente se torna sensível, tranqüila.

Ora, por que não está a mente sempre tranqüila? Toda vez que o padrão se cristaliza, por que não percebe a mente a verdade a esse respeito? Porque a mente deseja permanência, estabilidade, um refúgio de onde lhe seja possível operar. A mente quer estar segura. Dá-se a quebra de um determinado padrão, e poucos minutos depois observa-se uma nova cristalização; e, em vez de examinar essa nova cristalização e compreendê-la por completo, a mente volve à antiga experiência e diz "percebi a verdade, e isso deve continuar". Na busca de continuação, a mente cria um novo padrão e a ele se apega. Toda vez que ocorre cristalização, esta deve ser observada e compreendida; e a repetição ocorre por causa da deficiência da compreensão.

A verdade é não-continuidade. A verdade de ontem não é a verdade de hoje. A verdade não é do tempo e, portanto, não é da memória; não é algo que se possa experimentar, lembrar, ganhar, perder, ou realizar. Perseguimos a verdade, porque desejamos ganhá-la e dar-lhe continuidade; e logo que percebemos isso, realmente o padrão se quebrará, pois a mente, então, já cortou todas as amarras.

Krishnamurti - Madrasta, 29 de janeiro de 1950

Do livro: Que estamos buscando? - ICK
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